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quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Recantos do Mundo - o pentecostalismo em Angola, subsídios para a história das Assembleias de Deus


Temos observado o interesse que a publicação das memórias do
Missionário Joaquim Cartaxo Martins tem suscitado. Assim, recomendamos, para uma melhor compreensão do ambiente social, politico, cultural e religioso a leitura do livro «Recantos do Mundo», publicado pela Letras d'Ouro em 2004.

 
Texto de apresentação do livro «Recantos do Mundo», de José Manuel Martins

Para que se não alimentem elevadas expectativas, deixo expressa, aqui mesmo, logo no início, uma indispensável palavra de advertência aos leitores: esta não é uma obra acabada sobre o pentecostalismo em Angola pois de simples apontamentos tópicos ela se constitui e não mais do que isso.

Ousadamente, apresento-a, em primeiro lugar, para manifestar a minha ligação pessoal, directa ou indirectamente, à divulgação do Evangelho em Angola, na matriz pentecostal, se me é permitida a qualificação - ligação que, proporcionalmente, se assemelha à gota e a toda a água que há nos oceanos… - e para, em segundo lugar, numa tentativa ponderada, nomear, com maior relevo, aqueles que, com escassez de recursos de toda a ordem, tiveram coragem para se envolver, e às famílias respectivas, na espinhosa e difícil tarefa de anunciar as Boas Novas noutras terras de culturas e línguas diferentes - apesar da reclamada portugalidade imperial, matriz política dos poderes de então - dando-se inteiros a essa Causa, e cujos exemplos, injusta e incompreensivelmente, se vão da memória colectiva esbatendo, tanto mais, quanto é certo, que hoje são substancialmente distintas as condições em que se forjam as vocações para o mesmo fim.

Bem sabemos quão pobre é o nosso panorama editorial - refiro--me, obviamente, a obras escritas por portugueses, na língua pátria, com o objectivo principal de analisar e divulgar o trabalho missionário realizado sob a égide dos pentecostais.

Vá-se lá saber porquê!?

Não há quem escreva por falta de meios para garantir a edição e divulgação, ou não se edita e divulga porque não há quem escreva? Para o caso interessará pouco, diante da situação concreta de deixarmos perecer os obreiros das várias obras missionárias de relevo sem lhes exigirmos, num derradeiro sacrifício, que nos deixem as suas memórias em legado, enriquecendo a nossa história colectiva, que queremos preservar, se possível ditas - as memórias - na primeira pessoa, por cada protagonista em particular.

É minha convicção que não estão a ser feitos todos os esforços, ao alcance dos indivíduos comprometidos com o Movimento Pentecostal e das comunidades eclesiais que o representam adentro da lusitanidade, para impedir a ocorrência de lacunas na memória colectiva, que deve ser autêntica, verdadeira, assumida nas suas facetas múltiplas.

Porções importantes da história contemporânea perder-se-ão inexoravelmente se não formos capazes de incentivar o surgimento das fabulosas páginas de vida que, de momento, pairam apenas na alma e no espírito de corpos que o tempo entretanto deteriorou… para não suscitar a questão da responsabilidade por tudo o que perdemos sempre que assistimos ao decesso dos que sabíamos ter podido contribuir para o nosso enriquecimento colectivo.

Da minha parte, como acima referi, pretendo deixar registo de alguns factos, ocorridos durante a minha adolescência e juventude, que reputo de interesse, sem prejuízo, obviamente, da investigação a que procedi, a qual, sem ser exaustiva, me permitiu preencher os naturais e, nalguns casos, profundos vazios nas lembranças das vivências de ocorrência mais remota.

Como todos os leitores compreenderão, numa atitude de generosa e esperada benevolência, não me foi possível ir mais longe no aprofundamento de muitos aspectos relativos ao tema porque alguns dos protagonistas ainda estão entre nós - e estarão, querendo Deus, por muitos, felizes e produtivos anos - e quererão presentear-nos com as suas revelações e também porque as fontes de informação não se franquearam, como inicial e legitimamente perspectivei.

Não bastam, só por si, essas razões de desculpa para as enormes, visíveis e imperdoáveis insuficiências da obra. Há outras, certamente - algumas das quais assentam em pressupostos exclusivamente pessoais e que agora não vêm ao caso - que impediram que me detivesse em busca de outros materiais, que sei existirem, onde poder encontrá-los e como trabalhá-los, os quais, sem quaisquer dúvidas, enriqueceriam a obra, mais em termos do interesse que ela pode suscitar do que propriamente no número de páginas que lhe teria de adicionar.

Ninguém mais do que eu lamenta o facto de apenas agora me ter assomado à consciência, no contexto em que o assunto se coloca, de que não é legítimo apossarmo-nos, em exclusivo benefício, daquilo que aprendemos e vivemos com os outros…

No meu encalço virão certamente outros que completarão este esforço com muito mais tempo pela frente, com mais saber e com motivação idêntica, pelo menos. Como, em circunstâncias semelhantes, muitas vezes se afirma, dei o pontapé de saída.

Faço votos para que outros - uns com méritos reconhecidos pelo trabalho missionário realizado, outros detentores de saberes académicos específicos, que não me assistem, ou, ainda, por terem simplesmente vontade de partilhar connosco o passado laborioso dos missionários portugueses - me sigam…

Na medida em que a envolvência sócio-cultural desta obra está muito marcada pelo tempo, aos leitores mais sensíveis acerca das relações materialmente coloniais pedimos que compreendam que os termos de eventuais citações ou paráfrases devem ser compreendidos à luz dos valores e linguagem da época, onde imperava, pelo menos, um certo paternalismo em relação aos autóctones ou indígenas das regiões das estações missionárias, o que, aliás, também é visível na principal fonte de informação de que me servi, também a mais fidedigna - exactamente o jornal ou revista do movimento pentecostal - e no discurso dos protagonistas da acção missionária.

Ficaria de consciência sobrecarregada se não fizesse, nesta nota inicial, referência ao esforço dos evangélicos pentecostais americanos, que tomaram a iniciativa de levar o Evangelho ao Cuanza-Sul, a qual é tratada, em parte substancial, nesta obra. Não é lícito negar o pioneirismo de Edmond e Pearl Stark, tendo aquele dado a vida, ainda tão curta, no campo missionário, que vislumbrava tão promissor. É verdade que, nas condições concretas em que iniciaram o seu ministério, aqueles cidadãos norte americanos não puderem ali ir além da mera indagação da região onde poderiam iniciar, com vantagens imediatas para os povos respectivos, um novo campo missionário, razão que os trouxe das suas terras de origem e motivou os apoios espirituais e materiais que recebe-ram da sua comunidade evangélica.

Estava, porém, reservada à viúva de Edmond a missão de atrair os portugueses àquele campo de trabalho escolhido e partilhar a alegria de semear e colher com abundância, mesmo tendo que ceder, devido à sua condição de cidadã estrangeira, o protagonismo aos missionários que vieram ajudá-la a concretizar uma visão evangelizadora antiga e convicta, que antes a levara, com apenas vinte e um anos de idade, a trabalhar num orfanato no interior da China, durante um ano, e, aos trinta anos, à Libéria, como missionária, donde regressou aos Estados Unidos da América, após três denodados anos de serviço, debilitada na saúde por ter sido acometida pela doença da malária.
Lograria alcançar o fim de maior significado para mim se, com esta obra, proporcionasse aos leitores razões suficientes para se empolgarem com o trabalho missionário que está por fazer, tomando por fonte de inspiração o exemplo daqueles que deram as suas vidas pela causa da divulgação do Evangelho em longínquas e inóspitas paragens, mas também daqueles que, possuindo muito pouco de seu, contribuíram com os meios materiais para que os primeiros fizessem o que, pelo mínimo, adiante revelarei.

José Manuel Martins

Cidade de Amora, Setembro de 2004

Pode ler um excerto do livro aqui: http://www.letrasdouro.com/loja/index.php?act=viewProd&productId=7

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